As cartas de Elise


        (Imagem: Vanda Malvig)

        

        Cala-me

        e me deixa habitar-te agora,

        viver dentro de ti

        sem pressa, sem hora

        e morar em teus vastos vãos,

        e segurando-te pelas mãos

        passear por tuas esquinas,

        aninhando-me em teus becos

        e ruas divinas...

        Fala-me

        que fostes o dono da saudade

        e por tão pura vontade

        continuavas a esperar-me, sozinho,

        guardando meu cantinho,

        meu lugar,

        esperando o meu alento

        para no exato momento

        me calar...

                            Elise



 Escrito por Elise às 16h16
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        Eu te completo, você me acrescenta

          ( Poema feito em resposta ao poema da Geórgia, do dia 28-05-2004, postado lá no Retalhos e Pensamentos)

       

       

        Fui moço matreiro, confesso

        e de você eu me evadi

        das tuas delicadas rendas

        e do teu chá, que eu não bebi.

 

       Cometi delitos com uísque

       comprados em Santa Teresa

       hoje, me resta caminhar no Arpoador

       a procura de ti, amor, em mim presa.

 

       Vim de dentro para fora

       num vôo rasante imitado

       e de fora, quis entrar em ti

       pobre de mim, nem cheguei ao seu lado.

 

       Fui diabólico com uma deusa

       e hoje lamento um bocado

       não tenho dela nem a textura

       esse é meu castigo, meu pecado.

 

       Ando é com vontade de separar as coisas

       doido a pensar, debruçado na janela

       a imaginar que o que falta em mim,

       doçura e encanto, sobra nela.

                                    

                                         Elise

 

       Pra ver o poema original, acessa aqui: http://retalhosepensamentos.zip.net        

       Gê, todo o carinho do mundo pra ti!

        (Retalhos e Pensamentos é blog de propriedade de Ariane e Geórgia.)



 Escrito por Elise às 16h22
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       (Foto:Alexandre T.)

      

       E é com você que eu desejo

       Provar desse amor insano.

       Intenso, profano

 

       É por você que eu me acaricio

       E se você quiser

       Serei tua mais fiel voyer

 

       É pra você que eu ofereço

       Meu insaciável acto

       Meu obsceno pacto

 

       E ao tocar tua pele

       Descobri ser tua alma gêmea

       Tua mais ardente fêmea

 

       É você que é meu sentido

       É por você que tenho vivido

       Sussurrado, gemido

 

       E se assim você deseja

       Que assim seja.

       Assim será.

                             Elise



 Escrito por Elise às 16h09
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     Veio de longe, de repente, portando mistérios e como se tivesse minha posse, transformou meu céu.

     Fez-me pisar em suaves nuvens, aqueceu-me como o calor do sol, iluminou-me com o brilho das estrelas e trouxe chuva torrencial, banhando-me nas noites de verão.

     Abriu meu sorriso, passeou por meus sonhos e flutuou comigo ao som de trovoadas.

     Depois, sugeriu amor eterno, brindou nosso encantamento com a lua dentro do meu champanhe e pôs-me na mão direita um anel, de Saturno. Partiu.

     E eu ainda espero sua volta, nem que seja apenas para pegar o par de asas que esqueceu comigo...

                                                              Elise



 Escrito por Elise às 15h23
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     (Foto: José M. N. Silva)

      Que leve contigo

      As minhas carícias de seios agitados

      O meu sexo molhado

      Os meus poemas não declamados

      E todo o meu abrigo

      E deixe comigo

      O teu cio envolvente

      A lembrança de um corpo quente

      Um lugar na cama, ausente

      E um amor falido.

 

      Leve também o espelho

      E essa imagem partida

      Eu, refletida

      E o sentimento mantido.

      Dor...

                               Elise



 Escrito por Elise às 14h40
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                                        De floração

 

      Acordei dolorida, seios inchados, mamilos mudando de cor. A pele aveludada, os olhos brilhando. A barriga tornando-se esguia, os braços abrindo-se, ficando leves. Os lábios úmidos.

      Um líquido vermelho, uma pétala brotando entre as pernas, a primeira.

      Cúmplice, ele abriu as cortinas da janela, me pôs ao sol, e não descuidou da água que eu sorvia em goles sôfregos.

      Depois, me tirou os espinhos...

                                                    Elise



 Escrito por Elise às 00h19
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     (Foto de Joel Almeida)

    

   Chegou em casa depois de mais um dia produtivo em seu trabalho, tirou o paletó, afrouxou a gravata e pela primeira vez em anos, não a encontrou. Faminto, procurou pela janta pronta no forno. Nada. Serviu-se de um whisky, e chamou pela esposa, enquanto pensava onde diabos ela havia se metido. Pensava ele, em quando ela chegasse, dar-lhe um beijo, e dizer o quanto era amada, algo que não fazia há meses, e a compensaria pelas noites em que ela o esperou, e ele não veio. Foi quando viu, ao lado do telefone, um bilhetinho escrito por uma mão trêmula, que dizia:

  Amor meu, nós que já dividimos sonhos e cama, a partir de hoje dividiremos nossas vidas, discos e livros. Sugiro que você fique com os móveis do quarto, eu levarei os da sala. Dividamos os nossos perfumes : levo o seu, desfaça-se do meu.Levo comigo as frustrações finais, fica você com as alegrias do começo. Levo também as suas ausências, e deixo-te a minha. Deixo-te também meu abraço, e levo comigo apenas um resto dos teus beijos. Ah, não estranhe o piano, presente de seu pai. As teclas pretas estão aqui, na minha bolsa. Fica com as brancas. Au revoir.

   Leu, releu, e só quando percebeu que era definitivo, chorou.

   Incrédulo, ainda tentou achar um sinal qualquer de que ela voltaria, em vão. Guarda-roupa e gavetas vazios. Bebeu mais um gole, acendeu um cigarro, tentou gritar por ela, e tudo o que saiu de sua boca foi um fio de voz:

   Ne me quitte pas...

 

 

                                                Elise

 



 Escrito por Elise às 14h00
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        (Foto de Ricardo Faria)

   * assim, sem pausa pra respirar...

 

 Eu nego que quis que você chegasse e me abraçasse e me desses teus beijos e me acariciasse os seios e me alisasse a perna e me mordesse o pescoço e me admirasse os pés e me percorresse as coxas e me mordesse o ventre e me lambesse o sexo e me olhasse emocionado antes de me possuir eu nego!

 Eu não nego...

 

                                               Elise



 Escrito por Elise às 15h03
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         Preparei-me para a comédia.

         Repassei o texto no camarim.

         Vesti o figurino na sombra.

         Maquie-me vagarosamente,

         fitando minha coragem no espelho.

         Sorvi dois goles de absinto,

         e ensaiei a cena sozinha,

         sentindo-me estrela única.

         Acendi os refletores.

         Convenci-me dos possíveis aplausos.

         Iludi-me com desejos de autógrafo.

         Confiei no sucesso do primeiro ato,

         e acreditei num pedido de bis.

         No entanto,

         quando pisei no palco,

         deu-se em tragédia:

         A cortina continuou fechada...

                                Elise



 Escrito por Elise às 13h57
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             (Foto de Gustavo Rocha)

                   - Partida

 

 

  No ambiente, um som de Marvin Gaye. Volume máximo. Música melhor não há.

  Flores no vaso, água no copo. Pouco gelo para acompanhar, muito gelo para derreter.

  Meia-luz de um abajur, clareando a noite. Sapatos jogados, idéias perdidas.

  E eu disse: -vem...E ele veio.

  E novamente tirou minhas vestes e arrancou meus pudores.

  Virou-me de costas, beijou minha nuca. Lambeu, mordeu, deixando a marca dos dentes.

  Prensou-me na parede, de onde nem pensei em sair. Segurou-me pelos braços e esfregou seu sexo quente na minha bunda. E como se tivesse raiva, forçou-a, e fez de mim mulher-homem dele. E eu gritei, não sei se por amor, ou temor. E continuei ali.

  Depois, satisfeito, acendeu as luzes, me beijou a boca, bebeu um gole d`água, e me ofereceu. Eu recusei. E pra me derreter feito gelo, disse que eu era o seu benzinho. Saiu batendo a porta.

  Eu me senti estranha e íntima

  E então sorri, clareada como o ambiente.

  E cantei feito Marvin Gaye.

  Desde aquela hora, eu espero o efeito do veneno que havia no copo...

                                  Elise



 Escrito por Elise às 15h39
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                Sina

 Entrego-te meus sonhos excessivos.

 Minhas vontades distorcidas.

 Meus desejos desmedidos.

 Minha vaidade.

 Meu último sorriso.

 

 Desisto.

 

 Apago tua voz.

 Rasgo tuas palavras.

 Queimo tua imagem.

 Arranco-te da minha pele.

 Estive sonhando

 e não mais fecharei meus olhos.

 ...Rendo-me a tua não-vontade.

                    Elise



 Escrito por Elise às 02h10
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  *do que eu soube ser o poema do Spiral...

              ( en catalàn )

  Per què tremoles quan dius que m'estimes?
  L'amor existeix, i és fort, i brilla,
  i desafia el pes del cos,
  el pes del vespre, el pes exagerat
  dels anys que ens resten encara per viure.
  L'amor existeix, però s'allunya
  de la gent com nosaltres, amor meu.
  dels teus ulls embriagats de sexe.

 



 Escrito por Elise às 14h30
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 Eu teria preferido o vinho.

 Tinto e seco.

 Mancharia-me menos o lábio,

 embriagaria-me menos a alma.

 Teria-me feito dormir.

 Eu seria menos tensa,

 mais densa.

 Menos atirada.

 E responderia melhor por meus atos.

 Meus bons atos,

 e meus destratos.

 E eu seria mais forte,

 porque o vinho seria seco,

 e tinto.

 Diferente da tua boca,

 que desbotou a minha,

 e molhou-me,

 fazendo-me contrária ao vinho

 tinto e seco

 que eu teria preferido...

 

 

                        Elise



 Escrito por Elise às 00h07
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(um pensamento bobo, ou uma imaginação fértil)

 

 Mesmo na porta da igreja aqueles pensamentos ainda insistiam: e das vezes em que esperei tua presença; das vezes em que quis teu colo; das vezes em que apenas te quis...?

 Nem ao menos as flores reconciliadoras eu recebi.

 

 Mandei que entregassem o buquê ao noivo, dei meia-volta e parti sem olhar para trás.

 

  

                                                                   Elise



 Escrito por Elise às 23h46
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  E por que haverias de querer minha alma na tua cama?
  Disse palavras líquidas,
  deleitosas,
  ásperas,
  obscenas,
  porque era assim que gostávamos.
  Mas não menti

  gozo
  prazer
  lascívia
  nem omiti que a alma está além,
  buscando aquele Outro.
  E te repito:
  por que haverias de querer minha alma na tua cama?
  Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
  Ou tenta-me de novo.
  Obriga-me.

  Hilda Hilst

 

 

  Lindo, lindo. Eu gostaria de ter escrito isso...



 Escrito por Elise às 01h10
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Eu fico aqui pensando nas mães. Não que os filhos não estejam sofrendo. Uma parte deles sofre sim, muito. Mas as mães de ambas as partes sofrem por demais.

E eu, como mãe, me vi no lugar delas, por alguns momentos.

  A dor de uma mãe iraquiana, ao ver seu filho sendo torturado, é coisa desumana, lacerante.  É algo pra traumatizar até a mais distante das criaturas. É dor pra toda vida, pra além da vida. Não se têm filhos, não se cria filho pra esse fim. Chorei e me solidarizei com elas. Senti raiva dos soldados americanos.

  Depois, parei pra pensar nas mães dos americanos torturadores. E a dor que senti junto com elas, veio acompanhada de decepção, angustia, incredulidade talvez. Chorei duas vezes mais. Por ver um filho torturado, e por ver um filho torturando.

  Sinto e rezo por essas mães e filhos. Para que encontrem forças, e sejam poupados dessas tragédias inúteis.

  E, de novo, sinto raiva dos soldados americanos. Mesmo me colocando no lugar das mães deles.

  Você, que é mãe, sabe o que eu quero dizer...

 

 

 

Clica aí no link  :  um filho sendo torturado, e  um filho torturando.

 

http://uhpdistro.webcindario.com/tortura%20irak.htm 

 

  :'-(... Se não quer sentir dor, não clica...



 Escrito por Elise às 00h10
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Necessito de algo,

que me tire a tristeza.

Talvez a calma,

que tanto procuro.

Ou quem sabe alguém,

que desfaça meus muros.

Preciso chorar,

não posso.

Preciso sorrir,

não consigo.

Cansei de castigos.

Preciso falar,

e não encontro lugar.

 

                             Elise

 

...é, acho que encontrei...



 Escrito por Elise às 23h53
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