As cartas de Elise


    

     (Foto colhida na Web)

     abro os olhos e os braços e me abro toda. desabrocho, defloro, deslizo, derivo, resvalo, escorrego por teu corpo, e meu corpo estremece. terremoto, confusão. abalo sísmico nos meus poros, que são lagos do seu suor. e do meu. fluviais, nós. rio de desejo que entrecorta a aridez dos dias de não poder, e irriga nossas peles.  sal e sol. e ciumenta, a saudade dá seu lugar ao primitivismo da carne tua, maciça, que me invade e devora inteira. e eu louca, demente, psicótica, areia movediça, te engulo. e siso e juízo e tino nos olham de longe, espreitam, esperam, enquanto nós, avessos ao olhar da sensatez, nos misturamos. juntos, confundidos, embaralhados. cruzados e unidos. mãos e membros aderidos. chumbados. bocas e olhos molhados. chuva. e nos umedecemos qual vapor. e nos atraímos qual imã. pólos grudados. eletricidade. felicidade. leviandade. vaidade. animosidade. saudade. e todas as nossas imprudências e precipitações. ah, essa vontade...

 

 



 Escrito por Elise às 01h14
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      (Imagem colhida na web.)

    

       tocou meu peito

     e disse que seria meu,

     enquanto me lambia as pernas.

 

     eu, de-corada poesia,

     derretia toda prosa,

     poças, lagos, cisternas.

     

     teus caminhos em mim,

     sulcos na pelve, no dorso, saliva,

     nossas tatuagens eternas.

 

     de ti, sou o at(r)aque,

     o cais em que cais

     ao cair da madrugada, amor.

 

     - meu peito,

     monte herege provocando

     a folha dos teus olhos de cor.

     - tua boca,

     carne insolente

     incitando em meu corpo, o torpor.

 

     * Para W. 

    



 Escrito por Elise às 03h31
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     (Foto: Sergey Kharlamov)

     (Forever)

 

     A saudade (tua)

     me pegou pelo braço

     e  (nua)

     fez no meu regaço

     a batida (crua)

     do meu coração

     (alua)

     pulsando no espaço.

     Hoje sou (lua)

     crescente

     -estardalhaço-

     e em descompasso

     espero (melíflua)

     que assines teu nome

     dentro do meu abraço

     onde a saudade

     pactua

     desse amor

     em brasa

     (e perpetua)

     em aço.

     (vem e me tatua...)

 

   



 Escrito por Elise às 18h39
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     (imagem colhida na Web.)

      eu te amo tanto, que a simples menção do teu nome ao meu lado, numa praça qualquer, faz meu coração tremer, minha boca florear, minha visão apertar. fecho os olhos e te vejo em cada piscar de olho meu. lembro o teu olho me encarando e meu cílio te batendo palmas. era esse o meu convite, a minha senha. o olhar de renda, mormaceira, a piscadela. eu querendo ser tua no retalho da tarde que caía. nós, fazendo festa de olhos fechados. sei lá que sentimento é esse que excede os limites do necessário, tão demasiado, tão quantitativo em essência e excelência e que continua a aumentar, independente de contingências. é minha renda de bilro, o fio da seda, oferenda. renda-do-mar incrustada na tua rocha. são nossos corais. vai ver é mesmerismo, é lua crescente. indecente, inocente, não sei. sei que me deixa feliz... essa alegria trêmula que faz as crianças, ao me olharem, sorrirem claro feito espuma do mar. as crianças (me) entendem. vai ver é por ser eu mesma tão criança, com esse sentimento tão crescido dentro do peito, que eu cerro os olhos, floreio, tremo: just because you're you. 



 Escrito por Elise às 21h56
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     (Foto colhida na Web.)

     sobem em mim todas as tuas palavras de cobiça, e colhem o primeiro dos suspiros antes da nossa - pequena -  morte. ri e acha graça na minha carne tremente e acanhada, enquanto passeia pela pele suada, colhendo sumos assustados. encanta, seduz, enleva e brinca com o meu amor. ri. sorri. desce teu poema em espiral pelo meu corpo... enrosca tua poesia na subida - contorno de mim - rumo ao cume: a boca entreaberta. e invade... – a tua saliva tingindo o êxtase da mornitude do meu paladar. e a tua língua desenhando raios, vetores, raízes, riscos e riscos no meu pescoço desnudado pelo teu descaramento. sorri. ri. percorre o cimo do seio... o ventre em vertical... o subterrãneo em horizontal... e desliza, rodeia – sorrindo - o bolbo, antes de invadir, de jeito insolente, a minha intimidade. vem e sorri por uns instantes pro meu desespero lúbrico e brinca de fazer sorrir, pra calar o meu grito que, preso na garganta, suspira lento, em eco, pelas tuas palavras. e então, me sorri e me adormece. acalma e acalenta. ri, sorri. e quando eu acordar sorrindo, sobe de novo em mim e segreda repetidamente as mesmas palavras insaciáveis. inconstestáveis. imagináveis. risíveis. sorridentes. quase inconfessáveis.



 Escrito por Elise às 01h03
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      (Foto colhida na web)

      Haiti.

 

      o que toca o chão da terra

      é o que treme nas entranhas do mundo.

      profundo, em moto-contínuo,

      desmorona em segundos

      o humano ser

      aqui em mim,

      lá e ali,

      e em ti...

      e geme alto

      quando dilacera o asfalto

      rasgando a vida num fio.

 

      - e o coração, num grande vazio.

 

 

 

 

      *ajude através do site: www.vivario.org.br

 



 Escrito por Elise às 01h23
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      (Foto: Norm Murray)

      o que dizer do sentimento sem cortorno que não basta? do que se espalha sem margem e não delineia os sentidos? eu adormeço transbordada de você, amanheço imersa e, no entanto, há a estiagem. o que digo do que é tão fluído em mim e não te alcança? de tudo o que escorre, goteja, molha e embebe, por que o que umedece nunca é plural? entorno, derramo e sou nascente, porque não há suficiência. broto e sou vertente. verto tanto quanto é necessário. mais do que. verto para ver-te. verto num constante, firme, imutável e contínuo sentir. porque o que eu sinto escorre corpo-coração afora - e não há como trazer de volta. ocupa o mundo e ganha espaços. desordena e excede o meu mundo, os meus espaços. e sobeja. nunca apenas preenche. porque, onde você me faz falta, eu preciso sobrar.



 Escrito por Elise às 15h21
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      (Foto colhida na web)

      do gosto das coisas que pairam no chão enquanto o ar nos engole. e do braço firme que segura o desejo entre abraços. de derrapagens lúbricas em curvas sinuosas e retas extensas. do fechar e abrir dos olhos durante o delineio do sonho na retina que brilha em lascívia. do encontro do corpo-língua, que serpenteia na carne a vontade de desafiar mistérios e desvendar promessas. da lentidão apressada com que invade-me as divisas e te mergulhas. de ritmo, de balanço e maresia, balanço de mar,  balanço de amar e da poesia. dos lábios saboreando o gesto certeiro com que me tomas. e da palpitação urgente por senti-lo derramar.



 Escrito por Elise às 12h29
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     (Imagem: Eros)

     A minha anatomia te pulsa

     -desejo na corrente sanguínea, à deriva-

     Taquicardia de ti.

     Minha geografia é redesenhada     

     se escalas meu peito

     umedecendo-me

     venenosamente

     com suas artimanhas;

     minhas artérias se dilatam

     se sinto teu jeito

     a revirar-me

     v a g a r o s a m e n t e

     as entranhas.

     Sagrado, o que há de vir.

     Profano sentir.

     Amor de pecado, amor safado.

     De vísceras...



 Escrito por Elise às 19h24
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      (Foto: Robert Minnick.)

     meu corpo em ruínas quer a reconstrução das tuas mãos quentes, fundido-o. quer a irrigação da tua língua, dura, salivando na minha pele. terraplenagem, terra-planagem... vôo alto para dentro do teu olhar sacana... lembra quando pedias assim "danças pra mim?" e eu ria, ardia, sorria. nós pra lá, nós pra cá, e a vontade vinha densa, vinha tensa, vinha tesa e vinha deusa, marcando e ilimitando nossos terrenos férteis. planaltos e planícies em completa e total sintonia. afinidades magnéticas e imagéticas que ninguém mais poderia delimitar; que ninguém mais poderá delimitar. vem, me toma de assalto e fabrica, edifica e reestrutura meu corpo. não tarda, não demora, e arquiteta tua morada decisiva no terreno acidentado - levemente curvo - do meu quadril. invade, toma posse, se alastra, se espalha e deixa seu estigma magmático entre as pernas minhas. rega, umedece, molha, fertiliza, enraíza e colhe do meu gozo. desbrava, amansa, doma e domina. monda. monta... e deixa a minha saudade ali, demolida no chão.



 Escrito por Elise às 22h34
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      (Foto: Fabrício Jimenez)

      Air France.

 

     na calada da noite fria,

     o silêncio é risco,

     faca de fogo, trovoada, pane,

     ensurdecimento e agonia

     - a madrugada, voyeuse, sozinha...

     ecoando

     quatrocentos e quarenta e sete

     temporais

     na chuva

     da saudade minha.

 

     [o dolorido Último Tango...]

 



 Escrito por Elise às 16h55
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     (imagem colhida na web.)

     dessas pequenas posses tuas tão minhas... da palavra tua, que vem e costura todas as rupturas do tecido dos poros meus que te respiram dias e noites. do sono agitado pela falta do teu corpo quente aliciando sonhos ao meu lado. da eternidade mesma com que (me) habitas mesmo estando (eu) inerte. do que transborda e se opõe aos nãos e se põe em sins, em sóis, em si, em mim, em ti. em nós. do que é acalento quando a tua voz invade (no meio da minha tarde morna) meus devaneios e incita o desejo fálico de pêlos teus entre as pernas minhas. do que é o teu dedo passeando pelos meus lábios tentando te registrar a forma d’eu sentir o gosto teu diluído na minha língua. do que é o arrepio quando o vento da lembrança te traz junto e te cola à pele minha que, nua, se molda na tua latência e te diz: devora... do que é mero pensamento e, no entanto, o tem todo; tem-no, todo. do que é dúbio tanto quanto é certo. do que é, do que foi, do que seria se pudesse ter sido diferente. e do que é tão igual em mim e em você.



 Escrito por Elise às 10h34
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     (Foto colhida na web.)

    

     há mais de ti
     em meus vãos
     do que sonha
     a tua vã
     fantasia.


     há mais de mim
     em tuas mãos
     do que supõe
     essa vilã
     nostalgia.

 

  



 Escrito por Elise às 01h05
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      (imagem colhida na web)

       é quando as minhas mãos tremem, as minhas pernas ficam moles e eu tenho certeza de que esse gosto amargo que eu sinto dentro da boca é o néctar da doçura que eu trago no peito. é quando eu sei que já disse todas as coisas de todas as formas, e ainda sinto presas dentro de mim, todas as palavras. é quando meu infinito particular vira licença poética e alça vôo na realidade timbrada com as iniciais dele, exorcizando o que tanto me tesa. é quando a pele morna dele se encosta na minha e só me faz querer um abraço. é quando eu me ajoelho e olho pra cima durante a desesperança e a euforia que ganham força dentro de mim, e eu transito entre o que eu quero e o que eu nunca deixei de querer... é quando minha boca se entreabre, suculenta, e a acidez do vinho branco se mistura com o gosto das sementes todas que ele planta na minha língua em espiral, enquanto me diz - minha! gostosa... só minha! -, e eu gosto. é quando o gemido abafado dele ecoa através dos meus cabelos enrolados nas mãos dele, enquanto me põe em pé e me beija a boca, sussurrando que me ama. é quando as mãos dele, em concha, se encaixam nos meus seios e os acariciam como se fossem germinar ali, sob aquele tato, enquanto os olhos dele me desnudam antes mesmo da nudez escancarada do meu amor atacá-lo. é quando ele se encaixa entre as minhas coxas com a mesma violência com que me prende à parede e me lambe o pescoço com a delicadeza de quem quer traçar um caminho que prolongue o momento... é quando tão atada, tão eriçada, tão encantada, tão controversa no verso em contramão que me atravessa a vulva estou eu, nele, que meu corpo todo é vibração saindo pelos poros. é arrepio. é amor líquido na corrente sanguínea e o corpo dele é fonte explodindo vida no meu ventre sedento.  dilata, jorra, pulsa junto com as minhas contrações... é quando bate o meu peito junto ao peito dele de quando em sempre em sonho em suor e rápido em ritmo em arritmia e taquicardia  em grude em gozo em festa fast fast fast fast...



 Escrito por Elise às 16h11
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       (Imagem: Antoine de Villiers - Fervor)

 

      Queria-me (ele) talvez enamorada
      -voz doce e timidez em profusão-
      tão cândida qual luz em alvorada;
      mãos juntas ao colo em quase oração.

      Fosse outra situação, eu, recatada,
      largava-me ao leito, em mansidão,
      cerrava os olhos e, quase
cegada,
      deixava-me ao tato à exaustão.

      Cedesse, eu, estaria então abreviada,
      por ter em descompasso, o coração;
      mas faço-te, às vistas, desvirtuada,
      se o que me cega, amor, é a paixão.

      Por dentro, eu me sinto inflamada
      -se fora, pulsa em mim só adoração-
      minha veste toda, então, cai alarmada;
      mais alarmado tu, em
veneração.

      Deito-te em solo, nu, como cilada
      -me olhas - todo corado - rente ao chão-
      e acomodo a coxa lisa e decantada
      frente ao teu rosto, em quase ebulição.

      Esfrego-te, então, a carne molhada
      nos lábios sedentos à degustação;
      engole e escorre, a boca devastada
      e molhas-me de um mel em fermentação.

      Me aprumo, ajeito e desço maravilhada
      -teu olhar em mim, sublime enlevação-
      meu peito se desfaz em enxurrada
      e as pernas, já abertas, te cingirão.

      Engulo-te de vez, qual depravada
      -o quadril, tua tara, mexe na tua mão-
      a vergonha -de ti, de mim- já devassada,
      como devasso é nosso tesão.

      Te peço pra dizer: tu, minha amada!
      tu diz, sussurra com exatidão:
      - quero você, minha puta, largada

      de gozo em mim, gemendo  em união.

      Sentido a hora fatal aproximada,
     contraio a pelve em franca atração;
      teu jato então, em mim, já faz morada,
      meu gozo é longo, é tua sedução

      Desmaio em ti, então, já desgarrada
      -morres em mim, por pura indiscrição-
      a face rubra, a alma assustada,
      o corpo ferve em franca redenção.

      Olho pra ti, serena - não digo nada.
      tu ri, sorri, fala em amor pagão;
      te digo então: sou tua mulher doutrinada;
      diz tu: minha indulgência e salvação.

 



 Escrito por Elise às 12h43
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